
|Template por|
Nicole.
por Nancy H. Blakey
O poeta Willian Stafford disse certa vez que os desvios e distrações da vida nos definem melhor que as estradas retas que nos levam ao objetivo. Essa imagem me agrada, pois sou uma pessoa cuja atenção facilmente se desencaminha.
Sim, tenho objetivos, como qualquer outra pessoa, e faço o que tenho que fazer. Mas são os desvios loucos que me distraem e me levam a lugares deliciosos.
É como numa grande viagem pelo campo: para minha família, isso significa um grande e preguiçoso desvio após o outro, um deambular por estradas secundárias que acabarão por nos levar ao destino final. Desligamo-nos da realidade e por detrás de cada curva se nos deparam hipóteses diferentes. Paramos em celeiros convertidos em lojas, inspecionamos animais abatidos por caçadores e compramos os pêssegos mais sumarentos do mundo em bancas de beira de estrada. E, por não termos pressa, conversamos.
As coisas nem sempre se passaram assim entre nós. Foi por acaso (ou por desvio, se preferirem) que descobrimos esse outro lado das viagens pelo campo.
Durante anos infindos, levamos nove horas para cumprir o trajeto de quase
Eu me sentia receosa com aquelas viagens, e então ia depressa, parando apenas o necessário. Sem tirar os olhos da estrada, mantinha as crianças na ordem, com o braço sempre pronto a alcançá-las no bando de trás. Nós nos cingíamos às auto-estradas, contávamos as horas e os quilômetros. Chegávamos cansados e rabugentos.
Até que nasceu o Banner.
Banner é nosso carneiro, rejeitado pela mãe dias antes de partirmos para Boise. Vi-me entre duas opções. Uma era deixá-lo, ainda bebê, com meu marido, que o teria de levar para o escritório, dar-lhe de comer de duas em duas horas e lembrar-se de lhe mudar as fraldas. A outra era levá-lo comigo para Boise. Foi Greg quem escolheu por mim.
Foi assim que me vi na estrada com quatro crianças, um carneirinho, cinco bicicletas e nada mais além de meu eterno otimismo para me ajudar a ultrapassar a situação. Foi por necessidade que seguimos pelas estradas secundárias. Tínhamos de parar de hora em hora para deixar que o Banner desentorpecesse suas longas e inseguras pernas. As crianças corriam atrás dele ou umas das outras. Entravam no carro já sem fôlego e de baterias recarregadas, cheirando a fresco graças ao frio.
Começamos então anos achar esquisitos, mas de uma forma maravilhosa. Enquanto o mundo corria à nossa volta, nós não corríamos. Em vez de dispararmos em direção a Boise numa assentada, paramos num pequeno motel em Baker, no Oregon. Isso levou a que, na manhã seguinte, descobríssemos um pequeno estabelecimento que servia os bolinhos de canela mais macios e cheirosos que já havíamos comido.
Exploramos estradas secundárias, entregando-nos a nossos caprichos, como por exemplo caçar gafanhotos pelo meio do mato que nos dava pela cintura. Mesmo quando nos limitávamos a olhar pela janela do carro para peças de roupa esvoaçando num varal, leitõezinhos rebolando atrás da mãe ou uma truta que saltava na curva de um riozinho nos sentíamos melhor que durante a menos aborrecida das viagens pela auto-estrada. Ali havia vida. E novos horizontes. (continua no post abaixo)
Acabamos por chegar a casa de meus pais, espantosamente enérgicos e com montes de histórias para contar. Tínhamos levado mais cinco horas na estrada do que levávamos até então, mas note-se que depois precisávamos de umas cinco horas para nos recuperar.
Após esta aventura, fiquei mais corajosa (e um pouco irresponsável). No caminho de regresso, passei a fronteira para o Idaho e fui visitar minha avó. Paramos numa nascente de água quente por onde eu correra como louca por anos e anos. E tornei-me criativa em minha técnicas disciplinatórias: em dado momento, nos vimos num trecho de estrada vazio, na região leste do estado de Washington, e todo mundo começou a reclamar. Parei o carro, mandei-os sair e se encontrarem comigo mais à frente. Depois, avancei cerca de
Aquela viagem com o Banner nos abriu os olhos para um mundo à disposição de qualquer um que seja suficientemente despreocupado para vaguear descontraído pelas redondezas. Descobrimos que podemos parar junto a um rio pelo simples fato de estarmos sentindo calor nos pés e a água estar friazinha. O mundo pode esperar, enquanto paramos para ler placas que assinalam locais históricos junto à estrada, imaginando durante breves instantes a coragem e a determinação que eram precisas para se sobreviver há 150 anos.
Algumas viagens, por necessidade, são rápidas e feitas sempre sem para. Mas foi preciso um carneirinho preto para que eu compreendesse que, escondida sob um desvio, pode estar a melhor parte de uma viagem – e a melhor de nós mesmos.